O vilarejo
Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome.
As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.
Título: O vilarejo|
Autor: Raphael Montes|
Editora: Suma de Letras|
Skoob|Avaliação: FAVORITO!
É difícil resenhar um livro de contos, ainda mais quando se trata de um que eu gostei tanto. De qualquer forma, espero que consigam entender a essência dele e se interessar pela leitura.
Ao ler o primeiro conto, que fala sobre
Belzebu - fome -, achei que ele deveria ter ficado pro final. É que ele acaba soltando
spoiler sobre os outros contos, já que eles não seguem uma ordem cronológica, mas no fim percebi que foi a melhor organização possível. Sobre esse conto, só o que eu tenho a dizer é: o que a fome é capaz de fazer com uma pessoa?
"O vilarejo vem sendo dizimado dia após dia. O luto sentou-se à mesa. Ninguém chora os mortos. Não podem desperdiçar energia lamentando a partida dos que não suportaram o frio e a fome."
O segundo conto, que fala sobre
Leviathan - inveja -, fala um pouco sobre amor não correspondido, frieza (muita frieza) e claro, inveja. Em todos os sentidos e níveis possíveis.
O conto sobre
Lúcifer - ira - apresenta descrições angustiante. Me fez lembrar de uma história que criei há alguns anos, que falava, basicamente, sobre ação e reação. As vezes, ao nos precipitarmos em relação a algo, acabamos fazendo com que aquilo realmente ocorra, embora não fosse acontecer se tivéssemos ficado em nosso canto. Deu pra entender? Haha bom, acho que lendo esse conto dará pra entender bem.
"O mundo não se resume a este vilarejo no meio do nada, sr. Ivan. Existem outras línguas. E outros tons de pele. O fato de sermos todos brancos, de olhos claros, não nos torna melhores ou piores."
Em Asmodeus - luxúria - temos um personagem que tem fetiche por mulheres gordas e o que ele faz por conta disso. Apenas em Belphegor - preguiça - descobrimos o que antecedeu a todo o frio, fome e desgraça do vilarejo. É um conto intimamente ligado ao Lúcifer.
Em Mammon - ganância - somos levados à uma reflexão e tanto. O dinheiro é assim tão importante? Mais importante do que a própria família? O que o dinheiro é capaz de fazer com uma pessoa?
"O que você veste é dinheiro. O que você come é dinheiro. Onde você dorme é dinheiro. Tudo, minha querida, tudo é dinheiro."
Por fim, o conto
Satan - orgulho - foi o êxtase total! Ali é que tudo se explica, tudo se relaciona e "cai a ficha". Por conta da avidez que me dominou durante a leitura, acabei não prestando tanta atenção quando deveria. Dica: preste bem atenção desde o início e perceberá que "tudo está ali". Ainda assim, você pode achar que sabe de tudo, mas não sabe. Há tempos não lia um livro tão bom, tão bem escrito, com conexões tão perfeitas quanto O vilarejo.
"O pecado nos mata, meu caro Anatole. Não importa quanto tempo seja preciso. O pecado nos mata."
Antes de terminar, quero dizer que apesar de o início do livro "falar" que a ordem não importa, se ler Satan antes vai tirar toda a graça da coisa. De fato, os outros seis poderiam ser lidos em qualquer ordem, embora eu recomende que seja lido exatamente do jeito que é.
Ah, e quem tem medo de coisas sobrenaturais pode ficar despreocupado porque quem realmente assusta em O vilarejo não são fantasmas ou demônios, mas sim o próprio ser humano!
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